Nirvana

Carta de Despedida

20-04-2009 21:41

Carta de Despedida

Para Boddah

Falando pela voz de um simplório experiente que obviamente preferia ser um queixoso castrado e infantil. Esta nota deverá ser bem fácil de compreender. Todos os avisos dos cursos de punk rock 101, ao longo dos anos, desde a minha primeira introdução à, diremos, ética associada à independência e à aceitação na vossa comunidade, provaram-se verdadeiros. Há anos que não sinto a excitação de ouvir, ou mesmo criar música, nem sequer compor e escrever. Sinto-me culpado, para além daquilo que as palavras exprimem. Por exemplo, quando estamos no backstage e as luzes se apagam e o barulho ensurdecedor do público começa, não me impressiona da mesma forma que impressionava Freddy Mercury, que parecia adorar e saborear o amor e adoração do público, o que é algo que eu admiro e invejo nele. A realidade é: Não sou capaz de vos enganar. Nenhum de vocês. Simplesmente não seria justo nem para vocês nem para mim. O pior crime que eu imagino cometer seria enganar as pessoas, ludibriando-as e fingindo que me estava a divertir a 100%. Ás vezes parece-me que preciso de um toque de gongue para me empurrar para o palco. Tenho tentado tudo ao meu alcance para apreciar isso (e ainda aprecio, Deus, acreditem que aprecio, mas não é suficiente).
Reconheço que eu e nós influenciámos e divertimos muita gente.
Eu devo ser um desses narcisistas que só dá valor às coisas quando as perde. Sou muito sensível. Tenho de estar já um pouco entorpecido para recuperar o entusiasmo que tinha quando era criança.
Nas últimas 3 tournées consegui dar muito mais estima às pessoas que conheci pessoalmente e aos fãs da nossa música, mas mesmo assim não consegui ultrapassar a frustração, a culpa e a empatia que sinto por toda a gente. Há algo de bom em todos nós e eu penso que simplesmente amo demasiado as pessoas. Amo-as tanto que faz-me sentir tão triste. O tristonho, pequeno, sensível, peixes, Jesus meu! Porque é que não gozas a cena? Eu não sei!
Tenho uma mulher que é uma deusa que transpira ambição e empatia… e uma filha que me faz lembrar demasiado de como eu costumava ser. Cheia de amor e alegria, metendo-se com toda a gente que encontra porque todas as pessoas são boas e ninguém lhe fará mal. E isso aterroriza-me ao ponto de quase não funcionar. Não consigo imaginar que a Frances poderá vir a ser o infeliz, auto destrutivo, death rocker, em que eu me tornei. E correu-me tudo bem, tão bem e estou agradecido, mas desde os sete anos que odeio todos os seres humanos, de uma forma geral. Só porque parece tão fácil às pessoas conviverem e terem empatia. Empatia! Só porque eu amo e sinto pena das pessoas em excesso, talvez por isso.
Agradeço-vos a todos da boca do meu estômago ardente e nauseado, as vossas cartas e a vossa preocupação ao longo dos últimos anos. Sou uma pessoa demasiado excêntrica, instável, criança! Já não tenho a paixão e então lembrem-se, é melhor arder que esvanecer.
Paz, amor, Empatia.
Kurt Cobain

Frances e Courtney estarei no vosso altar.
Por favor Courtney continua
Pela Frances
Pela sua vida que será bem mais feliz sem mim.

 Amo-vos, AMO-VOS!

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